sexta-feira, 12 de junho de 2009

Aos namorados


Pela luz dos olhos teus - de Vinicius de Moraes


Quando a luz dos olhos meus

E a luz dos olhos teus

Resolvem se encontrar

Ai que bom que isso é meu Deus

Que frio que me dá o encontro desse olhar

Mas se a luz dos olhos teus

Resiste aos olhos meus só p'ra me provocar

Meu amor, juro por Deus me sinto incendiar

Meu amor, juro por Deus

Que a luz dos olhos meus já não pode esperar

Quero a luz dos olhos meus

Na luz dos olhos teus sem mais lará-lará

Pela luz dos olhos teus

Eu acho meu amor que só se pode achar

Que a luz dos olhos meus precisa se casar...
Anna Jailma

Leilão em Poesia


Leilão de Jardim


Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
Lavadeiras e passarinhos,
Ovos verdes e azuis nos ninhos?
Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raiode sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
Uma estátua da Primavera?
Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?
Este é meu leilão!

Cecília Meireles


Junho é tempo de leilão e em poesia tudo fica mais bonito...
Anna Jailma


Foto: autor desconhecido

domingo, 31 de maio de 2009

Seres humanos têm cada uma...

Um dia desses comentaram comigo que comer pastel na feira, usar paninho em liquidificador, pinguim na geladeira, jarro na mesa, e peso na porta, entre outra série de coisas, é 'coisa de pobre'...
Fiquei imaginando, afinal por que as pessoas se preocupam tanto em não fazer 'coisas de pobre' ou em não parecer que é 'pobre'??
Para mim ser rico é ter dinheiro sobrando e pobre é não ter dinheiro sobrando. Simples assim e isso não interfere na personalidade de ninguém...
E de repente pode até nem influenciar nos lugares que ela frequenta ou nas roupas que usa, nos objetos que têm em casa e principalmente, não influi no comportamento que tem...
Conheço pessoas que não tem dinheiro para pagar aluguel, tem telefone cortado a cada 30 dias, vive pagando o mínimo do cartão de crédito, mas só usa roupa de griffe, a casa é lotada de móveis e falta pouco 'arrancar os cabelos' preocupada em saber se alguém a está classificando de chic ou brega, de pobre ou rica...As vezes fica nos lugares 'pisando em ovos', sem sentir-se bem, só porque ouviu falar que tal pessoa 'rica' freqüenta...Tudo para seguir uma regra que nem sabe de onde vem...
Será que foi a Glória Kalil que ditou isso? Ou quem sabe a Danuza Leão? Será que está na Bíblia??? Ohhh...
Também conheço ricos que adoram tomar caldo de cana com pastel na feira, tomar um chop num barzinho e gastar horrores em feiras de artesanato...Nem por isso deixam de ter bom gosto ou de frequentar outros lugares.
Da mesma forma, conheço 'pobres' que têm educação em todos os ambientes e com todas as pessoas e conheço 'ricos' mal educados, que para cada grupo de pessoas apresenta uma personalidade diferente, têm o péssimo hábito de olhar para os outros de baixo para cima ou vice-versa, e são cobertos de arrogância e prepotência...Ou seja, têm a pior mazela da humanidade: pobreza de espírito.
A riqueza da vida, o fashion, o chic, é ser autêntico, ter personalidade, saber o que gosta e o que quer, sem ficar seguindo regras que não têm nada a ver com você...
Penso assim. E se pensar assim, é 'coisa de pobre', sou paupérrima...Mas sou feliz assim!


Anna Jailma

quarta-feira, 20 de maio de 2009

Clube da TPM!

Bárbara, do Clube da TPM: devora doces e sofre de dor de cabeça na TPM, como eu...
Navegando por aí cheguei no Clube da TPM. Isso mesmo! A Tensão Pré-Mestrual - TPM ataca tantas mulheres que já tem até clube...O site www.clubedatpm.com.br é simplesmente maravilhoso: ensina tudo sobre o combate a esta coisa inconveniente que aparece todos os meses junto com a menstruação (como se só a chatice da menstruação não bastasse...) e o melhor, o site traça vários perfis de TPM, mostrando formas de como o problema se apresenta.
Tudo isso de uma forma clara, objetiva e até divertida, porque cada perfil é adaptado a um tipo de TPM, identificado por uma das meninas do site.
Eu, por exemplo, me identifiquei com a Bárbara, que devora doces e sofre de intensas dores de cabeça nesse período, embora, eu tenha um pouco de tudo (mau humor, deprê e outros 'auês' da TPM), como a Dra. Estela...
E no site tem a Bárbara, Dra. Estela, Maria Cláudia, Ana Lúcia e Carol. Cada uma com um perfil, uma forma de viver a vida e um tipo de TPM...Certamente você vai se encaixar em algum dos perfis.
O interessante é que o site não vem com tópicos científicos do problema e usando linguagem complicada. O assunto é tratado de forma simples e ‘light’, até gostoso de entender.
Além disso outros assuntos interessantes são tratados no site envolvendo tudo de beleza, fitoterapia, e nutrição.
Amei o site. Fiz até cadastro para receber informações sobre as novidades, mensalmente.




Anna Jailma - saindo da TPM

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Quatro Paredes


Eu sou fogueira
Você, violão e voz
Sou vulcão
Você, erupção
Você, mar em lua cheia
Eu, os pés na areia
Você é dengo
Eu sou manha
Você vem, eu vou
Você quer, eu também
Você calor, eu amor
Você envolvente, eu quente
Com você, não parto
Com você, sacio
Me basta isso:
Nós dois
No quarto...



[Quatro Paredes - Anna Jailma]

Momento


Lembrando o Dia das Mães, porque Dia das Mães é todo dia...
Lembrando minha vontade de ser mãe, um dia...


Anna Jailma

terça-feira, 5 de maio de 2009

Beleza fundamental é a que vem de dentro


Uma escocesa desempregada, voluntária da igreja, de 47 anos, foi participar do famoso concurso televisivo “Britain’s Got Talent” (“A Grã-Bretanha Tem Talento”, em inglês); uma espécie de show de calouros.
Susan Boyle foi motivo de riso na platéia e ganhou olhares indiferentes ou críticos dos juízes do programa.
Com cabelos grisalhos, gordinha, e bem longe dos padrões de beleza, ela diz que nunca foi beijada e declarou no programa que sua ambição era tornar-se uma cantora profissional...Todos riram dela, tanto a platéia quanto os juízes que avaliavam os participantes.
Quando começou a cantar, Susan surpreendeu. Os juízes não acreditavam no que estavam vendo e ouvindo, ficaram literalmente embasbacados. Um deles, Piers Morgan disse que sua performance foi a maior surpresa que ele já teve em 3 anos de programa.
A platéia ficou de pé e Susan tornou-se famosa da ‘noite para o dia’.
A grande lição de Susan aconteceu dia 14 de abril e um videoclipe da apresentação de Susan no YouTube foi assistido mais de 100 milhões de vezes.
Olhar para o outro do ‘pé a ponta’ porque ele não atinge os padrões de beleza impostos pela sociedade; julgar a capacidade de alguém pelas roupas ou calçados que usa; fazer críticas severas com base na ‘casca’ de alguém; assim como qualquer ação que é fruto do preconceito, reflete o que existe de mesquinho na alma humana; porque beleza fundamental, amigos, é a que vem de dentro, a essência que é reflexo do espírito de cada um.

Para assistir o vídeo:


Anna Jailma

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Então me Diz...


É interessante como algumas músicas lembram momentos de nossa vida, como se fossem uma espécie de trilha sonora.
Esta música “Então me diz”, cantada por Simone, foi sucesso no final do ano de 2005; justamente quando eu estava me preparando para deixar a cidade de Campinas, em São Paulo, e voltar para casa, retornar para São João do Sabugi, RN. Era a volta para meu Nordeste.
Naquela época sempre que eu estava arrumando as malas, ou passeando em Campinas, vendo a decoração natalina que ilumina a cidade; era essa música que eu ouvia. E depois de tanto ouvi-la, quando na janela do ônibus eu via as últimas paisagens da exuberante cidade de Campinas, era desta música que eu lembrava: “Então me diz nada é tão triste assim /A vida é boa pra mim /Mais que o normal...”

Anna Jailma

sábado, 25 de abril de 2009

Mas a "Candinha" quer falar...

Pensando bem, a gente deve sentir dó de pessoas assim...
Carolina Ferraz: "Pessoas inteligentes trocam idéias, pessoas medianas comentam fatos e pessoas pequenas e medíocres comentam a vida dos outros ..."

Carolina Dieckmann: "Como diz meu amigo Faustão, todo boato não tem um fundo de verdade, tem um fundo de maldade"


Estive navegando por aí, visitando páginas úteis e até as fúteis da net, que também tem sua utilidade para aqueles dias que a gente quer somente 'passar o tempo'... Depois de entrar e sair em muitos blogs e sites, estive no blog da atriz Carolina Dieckmann e na postagem de ontem, estava a indignação da atriz sobre um 'boato' que saiu numa coluna, dizendo que ela teve um 'piti' com o programa Vídeo Show da Rede Globo...Mas este é apenas o fio da meada do assunto que vou tratar aqui. No texto da atriz ela disse uma frase do Faustão: "todo boato não tem um fundo de verdade, tem um fundo de maldade" e lembrei que na verdade nem somente os famosos são vítimas das "Candinhas" da vida.
Interessante é que as pessoas rotulam as 'cidades pequenas' de palco de fofocas e coisa do tipo, mas fofoca, ninguém se engane: não depende do tamanho da cidade e sim do tamanho da mente das pessoas. E gente da 'mente pequena' existe em todo lugar do mundo, independente do nível intelectual, financeiro, social ou sei lá o quê.
Quem nunca foi vítima de uma fofoca ou comentário maldoso de um vizinho, um colega de escola, um familiar ou até mesmo de uma pessoa que você jurava que era amigo de verdade?!
O 'disse-me-disse' existe em toda parte e para conviver com isso é necessário ter muito jogo de cintura e pos-tu-ra. Particularmente, tenho em mente que somente as pessoas por quem temos respeito e consideração merecem resposta, afinal, se alguém nem é importante pra mim porque perder tempo com 'stress'?!
Há pessoas que vivem uma vida sem ocupações úteis, sem um trabalho que as realize, sem a vivência de um amor recíproco, sem a realização de sonhos e sem a força para sonhar de novo...Pessoas assim sentem-se ocas por dentro, sem motivação e algumas desistem de lutar por uma vida melhor, e fazem uma opção mesquinha de 'viver a vida do outro'. Por isso mesmo, as vezes escolhem alguém, que na verdade elas até admiram, para observar, comentar e até inventar comentários bobos.
Pensando bem, se analisarmos friamente, até sentimos dó de pessoas assim...
Para encerrar, vou deixar uma frase dita pela atriz Carolina Ferraz ( hoje tive veneta de destacar as Carolinas globais...rsrs) na novela Belíssima, da Globo, que deu muito o que falar:
"Pessoas inteligentes trocam idéias, pessoas medianas comentam fatos e pessoas pequenas e medíocres comentam a vida dos outros ..."
A opção é de cada um...

Anna Jailma

terça-feira, 21 de abril de 2009

Veneta de parabenizar Brasília DF

Foto - Fê Pavanello: Brasília, capital do Brasil, faz hoje 49 anos
Céu de Brasília
Flávio Venturini
Composição: Toninho Horta/Fernando Brant

A cidade acalmou logo depois das dez
Nas janelas a fria luz da televisão divertindo as famílias
Saio pela noite andando nas ruas
Lá vou eu pelo ar asas de avião
Me esquecendo da solidão da cidade grande
Do mundo dos homens num vôo maluco
Que eu vou inventando e vôo até ver nascer
O mato, o sol da manhã, as folhas, os rios, o azul
Beleza bonita de ver nada existe como o azul
Sem manchas do céu do Planalto Central
E o horizonte imenso aberto sugerindo mil direções
E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez


Anna Jailma

sexta-feira, 17 de abril de 2009

A lista de amigos, como vai a sua?

"Faça uma lista de grandes amigos/Quem você mais via há dez anos atrás/Quantos você ainda vê todo dia/Quantos você já não encontra mais..."
(música A Lista - de Oswaldo Montenegro)
Acho que foi porque ouvi a música A Lista, de Oswaldo Montenegro, que me deu veneta de falar sobre amizade. Há quem diga que amizade supera o amor mas eu discordo; até porque se na amizade não existir o amor fraternal, tudo não vai passar de um mero coleguismo, amizade passageira.
Já percebeu quanto mudamos de grupos de amigos durante os ciclos da vida? Na infância construímos as primeiras amizades, geralmente na escola e no círculo familiar. São momentos que marcam para sempre e os amigos da infância, independente de permanecerem perto ou não, sempre vão ser lembrados.
Eu sempre vou lembrar das brincadeiras com bonecas de pano, dos passeios no sítio, das traquinagens nos primeiros anos de escola.
Depois na adolescência, novos amigos surgem. Algumas amizades oriundas da escola, outras poucas que permaneceram da infância e outras de encontros informais em festas ou baladas.
Na adolescência os grupos ou ‘tribos’ se formam e uma amizade puxa a outra. Geralmente é um processo de identificação. Você torna-se amigo de pessoas que imagina ter tudo a ver com você...E na juventude, parte destas amizades permanecem ou a gente imagina que deveriam permanecer, afinal, tinham “tudo a ver com você”.
Mas, novamente o ciclo da vida muda. Somos metamorfose ambulante, como disse Raul Seixas.
Na juventude vem a faculdade, o trabalho, e a cabeça muda, os sonhos são outros, os ideais ganham outros rumos e novos amigos são formados...e o ciclo continua, as mudanças também.
De tudo fica a lição que somente os amigos que persistem, são os verdadeiros. Amigo que é amigo fica feliz com as conquistas do outro e não cria picuinhas, não sente ciúmes de novas amizades e muito menos de novas realizações na vida do outro. Se isso existe, é muito mais um sentimento de posse ou de competição, do que amizade fraternal; amizade verdadeira.
Entre amigos não existe disputa, existe companheirismo. Não existe inveja, existe compartilhamento.
Tenho medo dos amigos que só aparecem quando estamos na pior, assim como tenho muito medo daqueles que só aparecem nos bons momentos da nossa vida.
Amigo que é amigo compartilha da nossa vida nos bons e ruins momentos. Esses sim, continuam sempre na lista como diz Oswaldo Montenegro e no ‘lado esquerdo do peito’, como diz Milton Nascimento.




Anna Jailma

terça-feira, 14 de abril de 2009

Zé Ninguém

Foto Guto: ilustrativa
Imagino que seu nome seja Zé. Simplesmente Zé. Eu o vejo sempre. Nunca conversamos. As pessoas passam por ele e não o vêem. Ninguém enxerga o Zé... O Zé Ninguém. Ele permanece lá, no mesmo lugar. Alto, magro, negro, de cabelos esvoaçantes e brancos.
O Zé tem cabelos brancos, embora sua idade seja, aparentemente, entre 40 e 50 anos...E fico a imaginar: terá filhos, netos, já amou alguém? Será que foi amado por um momento, um segundo... O que fez o Zé parar naquele lugar? Será que a vida lhe pareceu tão dura e árdua, que ele preferiu isolar-se? Ou será que o isolaram?
Talvez, no egoísmo da sociedade moderna, a família o tenha sentido como um fardo e tratado de se livrar do Zé. Como pode alguém viver sozinho, numa praça? É, uma praça! Há árvores, parque infantil, um coreto de arquitetura do início do século XX.
É um lugar bonito, com uma fonte que atrai muitas crianças. Alegres, elas pulam e brincam de um lado para outro, molhando as mãos e salpicando uns aos outros. Falam alto, gritam eufóricas, riem felizes... O Zé as observa como se estivesse resgatando o passado.Como se aquilo não fosse o presente que lhe cerca e sim uma visão dos dias de outrora.
Ele perambula para lá e para cá, sempre com as mesmas roupas e a mesma postura, um ar cansado, como se tivesse trabalhado... trabalhado... até a exaustão. O seu calçado preto, de borracha, não faz barulho ao caminhar, exceto quando pisa nas folhas secas.
Às vezes parece não me ver passar. Outras vezes me olha, como se pensasse em várias perguntas. Não parece disposto a responder às minhas indagações. Ele tem um olhar distante como se enxergasse um mundo diferente do que o cerca. O que será que enxerga o Zé? Provavelmente não entende a pressa desenfreada dos que por ali passam, muito menos o barulho dos carros frenéticos, buzinando incessantemente; dos caminhões que soltam uma fumaça escura e insuportável, das motos que correm contra o tempo.. Vejo isso quando passo... Mas o Zé está estático, com aquele olhar perdido, vendo as crianças no balanço que vai pra lá e pra cá... Caminha lentamente, pisa devagar nas folhagens, deita na grama, toca flauta. Isso mesmo! O Zé toca flauta. Não consigo entender que música ele toca, talvez nem ele saiba...
Ele vive sem televisão, computadores, sem os aparelhos de som e demais itens eletrônicos, tão fundamentais a nossa existência. Acredito que o Zé daria risada disso. Nós, que nos julgamos experientes e capazes, somos tão dependentes da era moderna e de seus acessórios! E de repente o Zé me remete ao Baudelaire: ambos têm aversão a esta ânsia desenfreada pelas máquinas da modernidade. Os dois, Zé e Baudelaire, tão distantes, tão próximos... Consigo imaginá-los batendo papo na praça.
Pela aparente idade do Zé, ele não deve ser aposentado e não tem trabalho. Desempregado... Vida difícil, a do Zé... Será que ele não recebe alguma renda? Eu nunca o vi pedindo dinheiro. Meu Deus, como ele sobrevive?! Será que um dia conseguirá aposentar-se? Não consigo imaginá-lo em filas de banco, estressando-se com o tempo que não passa, o funcionário que conversa no telefone ou com alguém ao lado, enquanto a fila não anda... Ou ainda esperar pela mocinha responsável pelas instruções do caixa eletrônico, que parece perdida diante de tantas dúvidas...
É bem provável que o Zé nem tenha idéia das filas do INSS. Ele conforma-se com as lembranças, com seu mundo interno, aquele que existe distante, onde somente seu pensamento alcança. Este Zé... Na fome, no frio, no calor, sobrevive... Se perguntassem ao Zé aquela pergunta tola que fazemos a todos que conhecemos e até ao nosso espelho, aquela pergunta tão essencial: “O que você faz da vida?”, o Zé, na sua simplicidade, certamente responderia: “Vivo”. Cobramos realização profissional, sucesso, topo, queremos alcançar a felicidade plena, o amor perfeito, os amigos exemplares, a profissão invejável, o melhor carro, uma mansão, belos filhos, família ímpar... E nem sempre estamos em paz... Já o Zé tem uma paz plena que emana de si próprio.
Meados de maio e o outono já é o dono do pedaço no Estado de São Paulo. O mundo fica cinza, frio, vento gelado. Passo na praça e lá está o Zé, de cabelos bem cortados, com a mesma jaqueta e calça preta, em contraste com a camiseta branca. Na praça, há água acumulada em vários pontos, misturando-se às folhas secas; a areia ao redor do parque infantil está escura de tão molhada, não há crianças, nem o sorveteiro e tudo contribui para o ambiente parecer mais frio.
Pensei em trazer uma sopa quente para o Zé e meu olhar o buscou na praça... Naquele fim de tarde, o Zé parece mais feliz: Está num banco da praça e, ao seu lado, uma moça de uns 30 a 35 anos, aparentemente. Ela conversa animadamente, parece lhe explicar alguns fatos, pois suas mãos gesticulam e fazem desenhos com os dedos na água do banco, onde estão sentados. Ela sorri, parece feliz e o Zé nada diz. Balança a cabeça em sinal de afirmação... Quem seria ela? Namorada? Esposa? Filha?
Caminho devagar pela praça e, embora já distante dos dois, continuo pensando naquela imagem: o Zé e uma moça conversando na praça. O que ocorreria após a conversa? Seria, aquele momento, um instante decisivo na vida dele? Ela parecia conhecê-lo e, ao lado deles, havia uma sacola enorme, cheia de roupas. Será que ela teria trazido roupas para o Zé? Ou estaria levando-o dali?
Sigo com minhas suposições e novas perguntas, agora sobre a existência daquela nova personagem, que invade minha história... Nesse mesmo dia, retorno à praça, e o Zé não está lá. Desde aquela tarde, nunca mais o vi... Talvez, um dia, ele volte ao Largo do Pará no centro de Campinas, talvez no próximo outono.


Anna Jailma